Auricélia Arapiun

Auricélia Arapiun é liderança indígena da Resex Tapajós-Arapiauns, onde cresceu entre rios, floresta e os ensinamentos das mulheres que curam e protegem o território. Ativista desde os 13 anos, defende o direito do seu povo à terra, à água limpa, à educação e ao bem viver.

Formada em Direito pela Universidade Federal do Oeste do Pará, Auricélia transformou as violências e o racismo que enfrentou na universidade em força para lutar pela autonomia e pelos direitos dos povos indígenas. Atuou na ocupação da Secretaria de Estado de Educação do Pará, durante os protestos contra mudanças na educação indígena e pela revogação da Lei 10.820/2024.

Em 2023, representou 14 povos indígenas na Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP28), em Dubai, levando ao mundo denúncias sobre os impactos da crise climática nos rios amazônicos. Já na COP30, em Belém, teve atuação destacada ao criticar acordos que, segundo ela, ameaçam territórios e vidas indígenas.

Conselheira da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) que articula e representa povos indígenas em toda a Amazônia Legal, e faz parte do Conselho Gestor da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI), fortalecendo a luta pelos territórios, pela autonomia e pela justiça socioambiental.

De acordo com a sua visão, o que está causando a crise climática?

O capitalismo veio para destruir tudo, né? Eles só pensam em dinheiro, só pensam em se dar bem — não importa como.
Na minha concepção, e concordando com a ciência, o que causa a crise climática é esse modelo de exploração sem limites.

Na nossa ciência tradicional, a gente vem há muito tempo alertando o mundo. Os nossos ancestrais já diziam que o céu ia cair, que ia esquentar, que ia chegar uma época em que tudo ia ficar escasso — e eu achava que não ia viver para ver isso. Ver o rio secar, ver os igarapés secando… Eu nunca imaginei. Nunca achei que ia ver peixe morrendo em grande quantidade, que a floresta ia queimar desse jeito, que plantar roça ia se tornar difícil.

Quando nossos avós falavam isso, não era só para nós, era um aviso para o mundo. Acho que nunca fomos ouvidos. As grandes indústrias têm impacto em tudo: exploração da natureza, combustíveis fósseis, desmatamento, mineração. Tudo isso causa a crise climática — e nada disso é responsabilidade nossa. Eles não sofrem os impactos. Quem sofre somos nós.

Aqui, basta ficar poucos minutos no sol para sentir. Agora imagina sentir o impacto do rio secando, de não ter água para beber porque as nascentes secaram. Ver os peixes e as caças morrendo, ver a floresta queimando. Eu nunca pensei que ia ver isso um dia.

O que significa dizer que a Amazônia é Uma Mulher?

A mulher é quem dá a vida. O homem não dá a vida. Nós temos útero, nós temos essa capacidade de gerar.
Então, se a Amazônia é uma mulher, só ela pode dar vida ao mundo, ao planeta. Além disso, a mulher representa resistência, cuidado, espiritualidade. Para mim, a Amazônia é como uma magé ou uma pajé — depende de como cada mulher que cura se reconhece. Para nós, ela é uma pajé: aquela que cura, que protege, que ensina o caminho certo da espiritualidade e do respeito. Nesse sentido, a Amazônia é uma mulher indígena, uma mulher da espiritualidade, que cura.

Qual o papel da Amazônia na ação climática no mundo?

Todo mundo fala que a Amazônia vai salvar o planeta. Mas, diante de tanta destruição, como ela vai cumprir esse papel?

Muitos cientistas alertam: se a Amazônia acabar, acaba tudo. Dizem que ela é o pulmão do mundo. Mas, na prática, veem a Amazônia como oportunidade de exploração e riqueza. A gente protege o território por tanto tempo, e aí chegam a mineração, o agronegócio, as hidrelétricas, o garimpo. Eles veem a Amazônia como recurso, não como bioma essencial para salvar a humanidade.

Eles poderiam estar discutindo, nas mesas de negociação da COP, formas de proteger a Amazônia. Mas não estão. O agronegócio, o hidronegócio, a mineração querem saber como explorar mais — e ainda dizem que vão fazer “agronegócio sustentável”, “mineração sustentável”. Desde quando isso existe? Não há sustentabilidade quando você agride um bioma tão importante. Não tem como concordar com isso.

Qual o papel das mulheres na cura planetária?

As mulheres sempre foram as que curam, as que cuidam, as que protegem. Sempre foram elas que mostraram o caminho do respeito e da espiritualidade. Por isso, as mulheres têm um papel fundamental na cura do planeta: porque carregam essa conexão com a vida, com o território, com a natureza. Se a Amazônia é uma mulher, uma mulher curadora, então as mulheres, no mundo todo, também têm esse papel de cura, de resistência e de proteção da vida.

E, por fim, que recado você deixaria para o mundo?

Para parar! Vamos parar de desmatar, parar de poluir, parar de invadir território indígena. Vamos proteger. A gente está aqui na COP tentando dar respostas e cobrando respostas concretas, porque estamos cansados. Estamos na COP30. Quantas negociações já tivemos? E o que mudou de verdade?

Aqui em Belém, por exemplo, gastaram 5 bilhões para construir estrutura — impactando territórios e pessoas. Todo mundo está sendo impactado: inclusive as periferias, onde são jogados os rejeitos das obras. Gastam muito mais para montar um megaevento que não vai nos dar respostas, do que para fazer ações concretas.

Tenho dito que a COP é uma farsa disfarçada. A gente faz muita incidência para que nossa voz seja ouvida, mas queremos mais do que isso: queremos respostas concretas, não respostas que tragam ainda mais insatisfação para nós.

Juma Xipaia

Foto: Evelyn Lynam


Juma Xipaia é liderança indígena do povo Xipaya e carrega na pele, na voz e no caminho a força de uma jovem guardiã da floresta. Mãe, esposa, ativista e futura médica pela Universidade Federal do Pará (UFPA), ela cresceu entre os rios do Médio Xingu e as histórias que ensinam que território é corpo — e que defendê-lo é um ato de amor e sobrevivência.

Aos 24 anos, tornou-se a primeira mulher cacique do Médio Xingu, liderando a aldeia Tukamã e abrindo um caminho que antes parecia impossível. Há mais de 14 anos dedica sua vida ao Movimento Indígena, lutando por igualdade de gênero, autonomia dos povos originários e pela proteção das lideranças que resistem às tentativas de cooptação e silenciamento.

Sua coragem ecoou longe. Cacique Raoni pediu ao mundo que protegesse Juma, reconhecendo nela uma das vozes mais firmes na defesa da Amazônia. Essa força, porém, também trouxe riscos: Juma sobreviveu a seis atentados, deixou o Brasil por ameaças e passou um ano na Suíça — onde fez história como a primeira pessoa Xipaya a discursar na sede da ONU.

Hoje, de volta à Amazônia, Juma transforma sua trajetória em futuro, ela fundou o “Instituto Juma” em outubro de 2020, ampliando sua luta para que seu povo — e a floresta — permaneçam vivos, fortes e respeitados. Sua voz é rio que não seca. Sua resistência, árvore que não cai. E sua existência, uma fronteira onde ancestralidade e coragem se encontram para proteger tudo aquilo que ainda pulsa.

De acordo com a sua visão, o que está causando a crise climática?

A crise climática é resultado direto de uma lógica econômica que coloca o lucro acima da vida. Em momentos de crise, governos e empresas primeiro retrocedem em suas políticas ambientais, como se desmatar fosse sinônimo de progresso e preservar a floresta representasse despesas não fundamentais. Essa visão equivocada de desenvolvimento nos levou a sucessivas crises, climáticas, sociais e econômicas, todas fruto de escolhas humanas erradas. Os povos indígenas, que há séculos cuidam da floresta, raramente são ouvidos, consultados ou informados sobre decisões que afetam seus territórios. A floresta não é uma despesa; é parte essencial da solução, garantindo equilíbrio climático, água, alimento e vida. Ter um Ministério dos Povos Indígenas, liderado por uma mulher indígena, é um avanço importante, pois nos coloca nos espaços de decisão e na luta pelas verdadeiras soluções para a crise climática.

O que significa dizer que a Amazônia é uma mulher?

Significa reconhecer sua força geradora, seu papel de cuidado e sua capacidade de sustentar a vida. Ela cria, nutre e resiste, mas também é constantemente explorada e silenciada por um sistema que só enxerga o que pode extrair dela. A floresta é um corpo-território que sente, luta e carrega o poder da ancestralidade. Desde o ventre da minha mãe, aprendi a protegê-la com o espírito, a coragem e o amor do meu povo. Acreditar que a Amazônia é uma mulher é acreditar em um futuro melhor, onde eu possa viver plenamente no meu território, como mulher, mãe, filha e ser indígena. É por isso que eu luto, para que meus filhos e as próximas gerações também possam viver e se reconectar com a terra que nos dá vida.

Qual o papel da Amazônia na ação climática mundial?

A Amazônia regula o clima, abriga a maior biodiversidade do mundo e armazena uma imensa quantidade de carbono. Quando a floresta é destruída, todo o equilíbrio da Terra é afetado, não apenas aqui, mas em todo o planeta. Nossa luta não é apenas pelos povos indígenas ou pelos territórios tradicionais. Lutamos pela defesa da vida, da humanidade, do planeta e das futuras gerações. Ouvir os povos que sempre cuidaram da floresta é essencial para romper esse ciclo de destruição. A floresta é a nossa casa, é o que permite a vida e não apenas para os povos indígenas, mas para toda a humanidade. Não existe progresso nem futuro sem a Amazônia, sem a sabedoria dos povos que garantem sua vida e seu equilíbrio.

Qual o papel das mulheres na cura planetária?

As mulheres têm um papel fundamental na cura planetária porque compartilham com a floresta o poder da criação, do cuidado e da renovação da vida. Assim como a Terra, o corpo feminino dá origem, acolhe, alimenta e protege. As mulheres indígenas, em especial, carregam o conhecimento da medicina ancestral e sabem encontrar a cura na floresta. São elas que conhecem as plantas, os cantos e os espíritos que curam o corpo e a alma. Na nossa visão, as mulheres são guardiãs da sabedoria e da conexão espiritual com a natureza. Quando uma mulher se levanta em defesa da floresta, da água, dos povos e da vida, ela está curando não só a Terra, mas também a humanidade.

E, por fim, que recado você deixaria para o mundo?

O recado que deixo para o mundo é que precisamos continuar lutando, cada um do seu jeito, mas sempre juntos. O objetivo é um só: defender a vida, a humanidade, o planeta e as futuras gerações. A COP é um espaço importante porque reúne lideranças globais em torno da crise climática, mas é preciso ir além das negociações políticas. Este é o momento de o mundo olhar para a Amazônia e reconhecer o papel dos povos e das mulheres indígenas e das comunidades tradicionais, que há séculos protegem os biomas brasileiros e garantem o equilíbrio do planeta.

Precisamos de ações concretas, não apenas discursos. Quem mais sofre com os impactos da crise climática são as mulheres, as crianças, os jovens, os povos indígenas, negros e periféricos. Proteger esses territórios é garantir a resiliência climática e a sobrevivência de todos. A resposta que o futuro precisa somos nós.

Danielle Souza

Danielle Souza, indígena do estado do Pará, nascida em Maíri (Belém) e criada entre os rios do Alto Rio Mojú, terra ancestral indígena Anambé. Cresceu ouvindo as vozes da floresta e aprendendo com as mulheres que curam, ensinam e guardam a vida. Historiadora pela UFPA, antropóloga pela PUC-PR e naturóloga pela Unisul, ela une ciência e ancestralidade em uma trajetória marcada pela educação, pela pesquisa e pela defesa dos saberes tradicionais da Amazônia.

Professora, pesquisadora e escritora, ela criou a Ginecologia Natural Amazônica e o laboratório de saberes ancestrais, espaços onde ciência e espiritualidade caminham juntas. Também é autora do filme Ouitê Ir’rapê: Parteiras das Ilhas, que homenageia as guardiãs do nascimento na Amazônia.

Com a sabedoria herdada de sua linhagem, Danielle cultiva a cura como forma de resistência. Sua voz ecoa como o som do rio que carrega memória — lembrando que cada mulher, cada história e cada gesto de cuidado mantêm viva a floresta e tudo o que ela ensina.

De Acordo com a sua visão, o que está causando a crise climática?

A crise climática não é apenas um problema ambiental, é um reflexo de uma crise humanitária. Vivemos como se fôssemos separados da Terra, como se ela existisse apenas para nos servir. A ganância, o consumo desenfreado e o desmatamento são sintomas de algo mais profundo: o esquecimento de que somos parte da natureza. A Terra não está em crise sozinha — nós estamos em crise com ela, porque geramos toda a destruição que vem ocorrendo há séculos. E o planeta apenas nos devolve o desequilíbrio que provocamos.

O que significa dizer que a Amazônia é uma mulher?

Dizer que a Amazônia é uma mulher é reconhecer que ela gera, nutre e protege a vida. Ela é ventre, é força, é sabedoria — e é assim que nós, povos originários da Amazônia, sempre a vimos: como a grande mãe-terra geradora, chamada de Pachamama, Iacy, Ceuci e por tantos outros nomes sagrados. Como tantas mulheres, a Amazônia tem sido explorada, ferida, silenciada. Quando dizemos que a Amazônia é uma mulher, afirmamos que ela tem corpo, tem voz e merece respeito. Defender a Amazônia é, portanto, um ato de amor e de justiça pela vida.

Qual o papel da Amazônia na ação climática do mundo?

A Amazônia exerce um papel crucial na estabilidade climática global ao funcionar como um importante sumidouro de carbono, removendo bilhões de toneladas de CO₂ da atmosfera e armazenando-as em sua biomassa e no solo, contribuindo diretamente para a mitigação das mudanças climáticas. O bioma também regula o ciclo hidrológico sul-americano por meio da evapotranspiração, que forma fluxos atmosféricos de umidade — nas nossas cosmologias originárias, chamados de “rios voadores” — responsáveis por sustentar os regimes de chuva e a segurança hídrica em grande parte do continente. Além disso, sua alta biodiversidade assegura a resiliência ecológica frente às variações climáticas e sustenta serviços ecossistêmicos vitais. A degradação e o desmatamento da Amazônia, contudo, comprometem essas funções, podendo converter a floresta de sumidouro em fonte líquida de carbono, com impactos significativos nas metas globais de mitigação e adaptação climática estabelecidas pelo Acordo de Paris. Por esse motivo, a Amazônia é o coração do planeta: ela pulsa em cada nuvem de chuva, em cada sopro de vento, em cada respiração nossa. Sem a Amazônia, não há estabilidade climática. Proteger a floresta não é apenas um dever do Brasil — é uma responsabilidade global. Cuidar da Amazônia é cuidar do futuro de todos os povos.

Qual o papel das mulheres na cura planetária?

As mulheres têm um papel essencial na cura da Terra. Elas conhecem o poder das curas que vêm da terra, do acolhimento, da escuta e da regeneração. Na Amazônia, são as nossas matriarcas que estão à frente da luta pelo território; são elas também — nossas mães, avós e bisavós — que plantaram este chão e criaram tecnologias ancestrais que fazem de nós a maior floresta e biodiversidade do mundo. Nas aldeias, nas periferias, nas universidades e nas ruas, são as mulheres que estão à frente das lutas pela vida. São as tecnologias de gênero e de sensibilidade que sustentam a humanidade desde que o mundo é mundo. Curar o planeta é também curar as feridas da desigualdade e da violência de gênero que atravessam humanos e natureza. Proteger as mulheres e a natureza é o caminho da cura.

E, por fim, que recado você deixaria para o mundo?

O planeta está nos pedindo uma nova forma de existir — mais simples, mais consciente e mais amorosa. Como foi o nosso modo de vida por tanto tempo, é necessário reaprender com nossos ancestrais a viver nesta terra com harmonia, a tirar sem degradar, sem secar e sem esgotar. Que possamos reaprender a ouvir o som das águas, o canto das florestas e o silêncio da Terra. A Amazônia, essa grande mãe criadora e doadora, nos alimenta, mas também precisa ser protegida antes que o tempo da regeneração acabe. Ainda há tempo — e esse tempo é agora!

Mayra Casttro

Mayra Casttro nasceu em Belém do Pará e carrega na essência a curiosidade de quem nasceu entre rios e fronteiras. Curiosa por natureza, diplomata por essência e conectora por escolha, ela construiu uma trajetória que une mundos — da Amazônia à Europa, da ciência à arte, das tradições às inovações.

Mestre em Direito Internacional e Europeu pela Universidade de Genebra, viveu seis anos na Europa e sonhava em ser diplomata desde criança. Discursou nas Nações Unidas, montou o Consulado Científico do Governo Suíço em São Paulo, desenvolveu um projeto na Índia contra o tráfico de mulheres e se apresentou em eventos internacionais como o WebSummit e o South Summit.

Em 2019, voltou às origens e fundou a InvestAmazônia, iniciativa que une conhecimento regional e experiência global para impulsionar projetos de inovação e sustentabilidade na floresta. Seu superpoder é construir pontes — entre pessoas, ideias e propósitos — transformando conexões em ações concretas que inspiram mudanças.

Como guardiã da Amazônia, Mayra traduz o espírito da floresta em rede: tece laços, cria caminhos e mostra que a força amazônica está também em conectar o local ao global, o humano ao planetário

De acordo com a sua visão, o que está causando a crise climática?

Eu acredito que a crise climática tem, por trás, uma crise relacional. A forma como a gente se relaciona com a natureza, dentro do sistema socioeconômico que construímos, é devastadora. Também estamos vivendo uma crise relacional dentro da nossa própria sociedade — nas relações profissionais, pessoais, em todos os níveis. Eu vejo que, por trás de tudo isso, está a questão de como estamos nos relacionando. A natureza vai buscar mecanismos de se restabelecer, nem que seja nos eliminando. Por isso, acredito que precisamos entender qual é a relação que estamos construindo e quais problemas já estão gerando consequências. A gente não se vê como parte da natureza. Desde criança, aprendemos na escola sobre a fauna e a flora — mas onde estamos nisso tudo? A verdade é que não nos enxergamos como fora, mas também não nos reconhecemos como parte.

O que significa dizer que a Amazônia é Uma Mulher?

A Amazônia é feminina por nome e por natureza. Esse nome que conhecemos é uma alusão às guerreiras amazonas da mitologia grega — e isso está registrado em cartas enviadas pelos navegadores espanhóis ao rei da Espanha na época. Então, dizer que a Amazônia é uma mulher é também uma forma de provocação, de refletir sobre a relação que temos com a região. Porque, se olharmos bem, a exploração e a forma como tratamos a mulher na sociedade não são muito diferentes da maneira como tratamos a natureza — a Amazônia.

Qual o papel da Amazônia na ação climática no mundo?

Acho que precisamos compreender o verdadeiro papel da Amazônia no mundo — e não apenas sob a ótica climática. Tenho a impressão de que o maior interesse sobre a região nunca foi, de fato, o clima, mas sim questões geopolíticas e econômicas. É fundamental ter isso em mente. Quando falamos em ação climática, precisamos refletir sobre como nos relacionamos com a Amazônia considerando esses aspectos, o econômico e o geopolítico, porque eles estão profundamente interligados. Para que a Amazônia desempenhe um papel positivo na agenda climática, é inevitável lidar com as dimensões econômicas que atravessam esse processo. E aí surge a pergunta: de que forma estamos fomentando novas economias na região? Fala-se muito sobre milhões sendo destinados à Amazônia, mas aqui esses recursos chegam em conta-gotas. Existe, sim, uma ação voltada à Amazônia, mas ela não pode ser vista apenas pelo viés climático. Precisamos encarar essa complexidade.

Qual o papel das mulheres na cura planetária?

Quando se fala em cura planetária, eu volto à questão do relacionamento — de como estamos nos relacionando. Tenho a sensação de que vivemos em uma sociedade que ainda não aprendeu a lidar com as emoções. Vejo que o papel da mulher na cura planetária passa justamente por reconhecer a importância das emoções no processo de cura. Temos, por exemplo, dados que mostram que as mulheres são mais empáticas no mercado de trabalho, e isso já aponta o caminho das pedras. Também acredito que precisamos de mais diversidade nos processos decisórios para que haja, de fato, uma mudança de paradigma.

E, por fim, que recado você deixaria para o mundo?

O recado que eu diria é uma frase que meu pai me diz desde que eu sou criança. Ele parafraseava Leão Tolstói e me dizia “minha filha, canta a tua aldeia que tu serás universal ”. Esse é o recado que eu tenho para dizer para o mundo, canta a tua aldeia que tu te tornarás universal para conversar com o mundo inteiro!