Juma Xipaia
@juma_xipaia Liderança Indígena"A floresta não é uma despesa; é parte essencial da solução, garantindo equilíbrio climático, água, alimento e vida"
Foto: Evelyn Lynam
Juma Xipaia é liderança indígena do povo Xipaya e carrega na pele, na voz e no caminho a força de uma jovem guardiã da floresta. Mãe, esposa, ativista e futura médica pela Universidade Federal do Pará (UFPA), ela cresceu entre os rios do Médio Xingu e as histórias que ensinam que território é corpo — e que defendê-lo é um ato de amor e sobrevivência.
Aos 24 anos, tornou-se a primeira mulher cacique do Médio Xingu, liderando a aldeia Tukamã e abrindo um caminho que antes parecia impossível. Há mais de 14 anos dedica sua vida ao Movimento Indígena, lutando por igualdade de gênero, autonomia dos povos originários e pela proteção das lideranças que resistem às tentativas de cooptação e silenciamento.
Sua coragem ecoou longe. Cacique Raoni pediu ao mundo que protegesse Juma, reconhecendo nela uma das vozes mais firmes na defesa da Amazônia. Essa força, porém, também trouxe riscos: Juma sobreviveu a seis atentados, deixou o Brasil por ameaças e passou um ano na Suíça — onde fez história como a primeira pessoa Xipaya a discursar na sede da ONU.
Hoje, de volta à Amazônia, Juma transforma sua trajetória em futuro, ela fundou o “Instituto Juma” em outubro de 2020, ampliando sua luta para que seu povo — e a floresta — permaneçam vivos, fortes e respeitados. Sua voz é rio que não seca. Sua resistência, árvore que não cai. E sua existência, uma fronteira onde ancestralidade e coragem se encontram para proteger tudo aquilo que ainda pulsa.
De acordo com a sua visão, o que está causando a crise climática?
A crise climática é resultado direto de uma lógica econômica que coloca o lucro acima da vida. Em momentos de crise, governos e empresas primeiro retrocedem em suas políticas ambientais, como se desmatar fosse sinônimo de progresso e preservar a floresta representasse despesas não fundamentais. Essa visão equivocada de desenvolvimento nos levou a sucessivas crises, climáticas, sociais e econômicas, todas fruto de escolhas humanas erradas. Os povos indígenas, que há séculos cuidam da floresta, raramente são ouvidos, consultados ou informados sobre decisões que afetam seus territórios. A floresta não é uma despesa; é parte essencial da solução, garantindo equilíbrio climático, água, alimento e vida. Ter um Ministério dos Povos Indígenas, liderado por uma mulher indígena, é um avanço importante, pois nos coloca nos espaços de decisão e na luta pelas verdadeiras soluções para a crise climática.
O que significa dizer que a Amazônia é uma mulher?
Significa reconhecer sua força geradora, seu papel de cuidado e sua capacidade de sustentar a vida. Ela cria, nutre e resiste, mas também é constantemente explorada e silenciada por um sistema que só enxerga o que pode extrair dela. A floresta é um corpo-território que sente, luta e carrega o poder da ancestralidade. Desde o ventre da minha mãe, aprendi a protegê-la com o espírito, a coragem e o amor do meu povo. Acreditar que a Amazônia é uma mulher é acreditar em um futuro melhor, onde eu possa viver plenamente no meu território, como mulher, mãe, filha e ser indígena. É por isso que eu luto, para que meus filhos e as próximas gerações também possam viver e se reconectar com a terra que nos dá vida.
Qual o papel da Amazônia na ação climática mundial?
A Amazônia regula o clima, abriga a maior biodiversidade do mundo e armazena uma imensa quantidade de carbono. Quando a floresta é destruída, todo o equilíbrio da Terra é afetado, não apenas aqui, mas em todo o planeta. Nossa luta não é apenas pelos povos indígenas ou pelos territórios tradicionais. Lutamos pela defesa da vida, da humanidade, do planeta e das futuras gerações. Ouvir os povos que sempre cuidaram da floresta é essencial para romper esse ciclo de destruição. A floresta é a nossa casa, é o que permite a vida e não apenas para os povos indígenas, mas para toda a humanidade. Não existe progresso nem futuro sem a Amazônia, sem a sabedoria dos povos que garantem sua vida e seu equilíbrio.
Qual o papel das mulheres na cura planetária?
As mulheres têm um papel fundamental na cura planetária porque compartilham com a floresta o poder da criação, do cuidado e da renovação da vida. Assim como a Terra, o corpo feminino dá origem, acolhe, alimenta e protege. As mulheres indígenas, em especial, carregam o conhecimento da medicina ancestral e sabem encontrar a cura na floresta. São elas que conhecem as plantas, os cantos e os espíritos que curam o corpo e a alma. Na nossa visão, as mulheres são guardiãs da sabedoria e da conexão espiritual com a natureza. Quando uma mulher se levanta em defesa da floresta, da água, dos povos e da vida, ela está curando não só a Terra, mas também a humanidade.
E, por fim, que recado você deixaria para o mundo?
O recado que deixo para o mundo é que precisamos continuar lutando, cada um do seu jeito, mas sempre juntos. O objetivo é um só: defender a vida, a humanidade, o planeta e as futuras gerações. A COP é um espaço importante porque reúne lideranças globais em torno da crise climática, mas é preciso ir além das negociações políticas. Este é o momento de o mundo olhar para a Amazônia e reconhecer o papel dos povos e das mulheres indígenas e das comunidades tradicionais, que há séculos protegem os biomas brasileiros e garantem o equilíbrio do planeta.
Precisamos de ações concretas, não apenas discursos. Quem mais sofre com os impactos da crise climática são as mulheres, as crianças, os jovens, os povos indígenas, negros e periféricos. Proteger esses territórios é garantir a resiliência climática e a sobrevivência de todos. A resposta que o futuro precisa somos nós.