Vozes das Guardiãs

Mayra Casttro

@mayracastropro Designer de conexões e parcerias

"A crise climática tem por trás uma crise relacional. A natureza vai buscar mecanismos de se restabelecer, nem que seja nos eliminando."

Mayra Casttro nasceu em Belém do Pará e carrega na essência a curiosidade de quem nasceu entre rios e fronteiras. Curiosa por natureza, diplomata por essência e conectora por escolha, ela construiu uma trajetória que une mundos — da Amazônia à Europa, da ciência à arte, das tradições às inovações.

Mestre em Direito Internacional e Europeu pela Universidade de Genebra, viveu seis anos na Europa e sonhava em ser diplomata desde criança. Discursou nas Nações Unidas, montou o Consulado Científico do Governo Suíço em São Paulo, desenvolveu um projeto na Índia contra o tráfico de mulheres e se apresentou em eventos internacionais como o WebSummit e o South Summit.

Em 2019, voltou às origens e fundou a InvestAmazônia, iniciativa que une conhecimento regional e experiência global para impulsionar projetos de inovação e sustentabilidade na floresta. Seu superpoder é construir pontes — entre pessoas, ideias e propósitos — transformando conexões em ações concretas que inspiram mudanças.

Como guardiã da Amazônia, Mayra traduz o espírito da floresta em rede: tece laços, cria caminhos e mostra que a força amazônica está também em conectar o local ao global, o humano ao planetário

De acordo com a sua visão, o que está causando a crise climática?

Eu acredito que a crise climática tem, por trás, uma crise relacional. A forma como a gente se relaciona com a natureza, dentro do sistema socioeconômico que construímos, é devastadora. Também estamos vivendo uma crise relacional dentro da nossa própria sociedade — nas relações profissionais, pessoais, em todos os níveis. Eu vejo que, por trás de tudo isso, está a questão de como estamos nos relacionando. A natureza vai buscar mecanismos de se restabelecer, nem que seja nos eliminando. Por isso, acredito que precisamos entender qual é a relação que estamos construindo e quais problemas já estão gerando consequências. A gente não se vê como parte da natureza. Desde criança, aprendemos na escola sobre a fauna e a flora — mas onde estamos nisso tudo? A verdade é que não nos enxergamos como fora, mas também não nos reconhecemos como parte.

O que significa dizer que a Amazônia é Uma Mulher?

A Amazônia é feminina por nome e por natureza. Esse nome que conhecemos é uma alusão às guerreiras amazonas da mitologia grega — e isso está registrado em cartas enviadas pelos navegadores espanhóis ao rei da Espanha na época. Então, dizer que a Amazônia é uma mulher é também uma forma de provocação, de refletir sobre a relação que temos com a região. Porque, se olharmos bem, a exploração e a forma como tratamos a mulher na sociedade não são muito diferentes da maneira como tratamos a natureza — a Amazônia.

Qual o papel da Amazônia na ação climática no mundo?

Acho que precisamos compreender o verdadeiro papel da Amazônia no mundo — e não apenas sob a ótica climática. Tenho a impressão de que o maior interesse sobre a região nunca foi, de fato, o clima, mas sim questões geopolíticas e econômicas. É fundamental ter isso em mente. Quando falamos em ação climática, precisamos refletir sobre como nos relacionamos com a Amazônia considerando esses aspectos, o econômico e o geopolítico, porque eles estão profundamente interligados. Para que a Amazônia desempenhe um papel positivo na agenda climática, é inevitável lidar com as dimensões econômicas que atravessam esse processo. E aí surge a pergunta: de que forma estamos fomentando novas economias na região? Fala-se muito sobre milhões sendo destinados à Amazônia, mas aqui esses recursos chegam em conta-gotas. Existe, sim, uma ação voltada à Amazônia, mas ela não pode ser vista apenas pelo viés climático. Precisamos encarar essa complexidade.

Qual o papel das mulheres na cura planetária?

Quando se fala em cura planetária, eu volto à questão do relacionamento — de como estamos nos relacionando. Tenho a sensação de que vivemos em uma sociedade que ainda não aprendeu a lidar com as emoções. Vejo que o papel da mulher na cura planetária passa justamente por reconhecer a importância das emoções no processo de cura. Temos, por exemplo, dados que mostram que as mulheres são mais empáticas no mercado de trabalho, e isso já aponta o caminho das pedras. Também acredito que precisamos de mais diversidade nos processos decisórios para que haja, de fato, uma mudança de paradigma.

E, por fim, que recado você deixaria para o mundo?

O recado que eu diria é uma frase que meu pai me diz desde que eu sou criança. Ele parafraseava Leão Tolstói e me dizia “minha filha, canta a tua aldeia que tu serás universal ”. Esse é o recado que eu tenho para dizer para o mundo, canta a tua aldeia que tu te tornarás universal para conversar com o mundo inteiro!

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