Vozes das Guardiãs

Danielle Souza

@ginecologianaturalamazonica Cientista e Consultora de saberes ancestrais

"A Amazônia, essa grande mãe criadora e doadora, nos alimenta, mas também precisa ser protegida antes que o tempo da regeneração acabe."

Danielle Souza, indígena do estado do Pará, nascida em Maíri (Belém) e criada entre os rios do Alto Rio Mojú, terra ancestral indígena Anambé. Cresceu ouvindo as vozes da floresta e aprendendo com as mulheres que curam, ensinam e guardam a vida. Historiadora pela UFPA, antropóloga pela PUC-PR e naturóloga pela Unisul, ela une ciência e ancestralidade em uma trajetória marcada pela educação, pela pesquisa e pela defesa dos saberes tradicionais da Amazônia.

Professora, pesquisadora e escritora, ela criou a Ginecologia Natural Amazônica e o laboratório de saberes ancestrais, espaços onde ciência e espiritualidade caminham juntas. Também é autora do filme Ouitê Ir’rapê: Parteiras das Ilhas, que homenageia as guardiãs do nascimento na Amazônia.

Com a sabedoria herdada de sua linhagem, Danielle cultiva a cura como forma de resistência. Sua voz ecoa como o som do rio que carrega memória — lembrando que cada mulher, cada história e cada gesto de cuidado mantêm viva a floresta e tudo o que ela ensina.

De Acordo com a sua visão, o que está causando a crise climática?

A crise climática não é apenas um problema ambiental, é um reflexo de uma crise humanitária. Vivemos como se fôssemos separados da Terra, como se ela existisse apenas para nos servir. A ganância, o consumo desenfreado e o desmatamento são sintomas de algo mais profundo: o esquecimento de que somos parte da natureza. A Terra não está em crise sozinha — nós estamos em crise com ela, porque geramos toda a destruição que vem ocorrendo há séculos. E o planeta apenas nos devolve o desequilíbrio que provocamos.

O que significa dizer que a Amazônia é uma mulher?

Dizer que a Amazônia é uma mulher é reconhecer que ela gera, nutre e protege a vida. Ela é ventre, é força, é sabedoria — e é assim que nós, povos originários da Amazônia, sempre a vimos: como a grande mãe-terra geradora, chamada de Pachamama, Iacy, Ceuci e por tantos outros nomes sagrados. Como tantas mulheres, a Amazônia tem sido explorada, ferida, silenciada. Quando dizemos que a Amazônia é uma mulher, afirmamos que ela tem corpo, tem voz e merece respeito. Defender a Amazônia é, portanto, um ato de amor e de justiça pela vida.

Qual o papel da Amazônia na ação climática do mundo?

A Amazônia exerce um papel crucial na estabilidade climática global ao funcionar como um importante sumidouro de carbono, removendo bilhões de toneladas de CO₂ da atmosfera e armazenando-as em sua biomassa e no solo, contribuindo diretamente para a mitigação das mudanças climáticas. O bioma também regula o ciclo hidrológico sul-americano por meio da evapotranspiração, que forma fluxos atmosféricos de umidade — nas nossas cosmologias originárias, chamados de “rios voadores” — responsáveis por sustentar os regimes de chuva e a segurança hídrica em grande parte do continente. Além disso, sua alta biodiversidade assegura a resiliência ecológica frente às variações climáticas e sustenta serviços ecossistêmicos vitais. A degradação e o desmatamento da Amazônia, contudo, comprometem essas funções, podendo converter a floresta de sumidouro em fonte líquida de carbono, com impactos significativos nas metas globais de mitigação e adaptação climática estabelecidas pelo Acordo de Paris. Por esse motivo, a Amazônia é o coração do planeta: ela pulsa em cada nuvem de chuva, em cada sopro de vento, em cada respiração nossa. Sem a Amazônia, não há estabilidade climática. Proteger a floresta não é apenas um dever do Brasil — é uma responsabilidade global. Cuidar da Amazônia é cuidar do futuro de todos os povos.

Qual o papel das mulheres na cura planetária?

As mulheres têm um papel essencial na cura da Terra. Elas conhecem o poder das curas que vêm da terra, do acolhimento, da escuta e da regeneração. Na Amazônia, são as nossas matriarcas que estão à frente da luta pelo território; são elas também — nossas mães, avós e bisavós — que plantaram este chão e criaram tecnologias ancestrais que fazem de nós a maior floresta e biodiversidade do mundo. Nas aldeias, nas periferias, nas universidades e nas ruas, são as mulheres que estão à frente das lutas pela vida. São as tecnologias de gênero e de sensibilidade que sustentam a humanidade desde que o mundo é mundo. Curar o planeta é também curar as feridas da desigualdade e da violência de gênero que atravessam humanos e natureza. Proteger as mulheres e a natureza é o caminho da cura.

E, por fim, que recado você deixaria para o mundo?

O planeta está nos pedindo uma nova forma de existir — mais simples, mais consciente e mais amorosa. Como foi o nosso modo de vida por tanto tempo, é necessário reaprender com nossos ancestrais a viver nesta terra com harmonia, a tirar sem degradar, sem secar e sem esgotar. Que possamos reaprender a ouvir o som das águas, o canto das florestas e o silêncio da Terra. A Amazônia, essa grande mãe criadora e doadora, nos alimenta, mas também precisa ser protegida antes que o tempo da regeneração acabe. Ainda há tempo — e esse tempo é agora!

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